domingo, 8 de janeiro de 2012

Notas Biográficas

Pintora
Maria Amélia de Magalhães Carneiro 
(2.3.1883 - 19.2.1970)
 
A pintora em 1912
Maria Amélia de Magalhães Carneiro nasceu a 2 de Março de 1883 na freguesia de Cedofeita, no Porto, cidade onde faleceu a 19 de Fevereiro de 1970, aos 86 anos. Filha de José Bernardo Dias Carneiro e de Júlia Caldas Moreira de Magalhães Carneiro, era a mais nova de cinco filhos, tendo ficado órfã de mãe aos 6 anos de idade, o que muito a marcou toda a vida.

Laços familiares ligam-na a alguns vultos da cultura portuguesa: o poeta portuense ultra-romântico António Pinheiro Caldas (1824-1877), seu tio-avô; o pintor António Carneiro (1872-1930), a artista plástica Irene Carneiro de Sá Vieira Natividade (1900-1995), o poeta e filósofo José Amorim de Carvalho (1904-1976) e a pintora Maria Helena Vieira da Silva (1908-1990), seus primos; o Arquitecto José Carlos de Magalhães Carneiro (1931), seu sobrinho-neto.


"Cabeça de velha" 1915
A sua formação artística teve início na Academia Portuense de Belas Artes, onde se inscreveu aos 15 anos de idade, em Outubro de 1898, no Curso de Desenho Histórico, tendo sido aluna de Mestre José de Brito (1855-1946). Prosseguiu os seus estudos no Atelier-Curso do pintor portuense Mestre Júlio Costa (1853-1923), onde se integrou plenamente num grupo de artistas, de várias gerações, que incluia, entre outros, os pintores Mestre António José da Costa (1840-1929)  e Margarida Costa (1881-1937). Foi igualmente discípula de Mestre José Malhoa (1855-1933), durante as estadias regulares que fazia em Lisboa, cujo aconselhamento sempre a guiou nas suas escolhas artísticas.

"Vendendo castanhas" 1910 
Porto

Tal como muitos dos artistas nascidos na segunda metade do século XIX e que se mantiveram activos até às décadas de 40/50 do século XX, recebeu a sua formação num ensino académico dominado por uma prática tardo-naturalista, pelo que se revelou uma fiel seguidora dos valores estéticos da primeira geração destes artistas.

Pintora da aldeia portuguesa, formada segundo os cânones da estética naturalista, foi no mundo rural que encontrou os temas que mais a fascinaram - os rostos das gentes, os interiores das casas, as paisagens, a faina agrícola de aldeias do MInho e das Beiras. 

A orla marítima inspirou igualmente as suas telas, quer junto do Porto (Foz do Douro e Leça da Palmeira), quer junto de Aveiro (Costa Nova). Dignos de apreço são ainda as suas naturezas-mortas e os trabalhos de temática religiosa, com destaque para os painéis dos retábulos dos altares-mor da Igreja Matriz da Pocariçada Capela da Casa dos Pobres de Cadima, ambas no concelho de Cantanhede, e da Igreja de Pinhanços, em Seia. 

Dedicando quase toda a sua prática artística a cenas de quotidiano, interiores e retrato, a pintora detém-se nos rostos com a ternura peculiar de quem conhece o modelo e lhe procura captar o carácter. Os detalhes do vestuário são símbolos sociais que enquadram a sua obra num contexto cultural.


"Véspera de feira" 1946 
Pocariça

Nos interiores, nas paisagens ou nas cenas de quotidiano, a pintora foi imobilizando os ritmos diários do ambiente em seu redor. Nestas obras é perceptível a influência de Columbano, quer no tratamento da luz e do negrume dos interiores (já herdado da tradição da pintura holandesa), quer num esbatimento das formas mais próximo do impressionismo.  

A pintura de Amélia Carneiro reveste-se de uma importante dimensão documental e etnográfica, pois, através da sua obra, podemos observar e relembrar as gentes das aldeias portuguesas, as suas vidas, as suas terras, as suas casas e os seus costumes, na primeira metade do século XX. 


Após a morte repentina de seu pai, decidiu deixar o Porto e fixar  residência na Pocariça, concelho de Cantanhede, aldeia a que estava ligada por laços familiares e onde passava férias desde a infância. O fascínio que sentia pela temática rural e pela pintura de ar-livre pesou nessa decisão, que determinou uma viragem na sua vida e se reflectiu no rumo da sua carreira artística. 

Ali residiu e trabalhou de 1912 a 1941, durante cerca de três décadas, que constituíram um dos períodos mais activos da sua carreira artística e docente. Chegado o ano de 1941, a pintora regressou definitivamente ao Porto, sua terra natal, prosseguindo as suas actividades artística e docente com assinalável êxito. 
"Garoto dos jornais" 1942

É autora de mais de quatrocentos trabalhos, entre desenhos e pinturas, representados em colecções particulares e públicas, de que se destacam o Museu Nacional de Soares dos Reis, a Câmara Municipal do Porto, a Câmara Municipal de Coimbra, a Universidade de Porto e a Pinacoteca de São Paulo - Brasil.

Apresentou-se em cerca de quarenta exposições (individuais e colectivas), nos mais reputados salões de arte do País - Lisboa, Porto, Coimbra, Viseu e Estoril - , entre os quais a Sociedade Nacional de Belas-Artes de Lisboa, de cujos certames anuais era regular participante, e o Salão Silva Porto, no Porto. O seu mérito foi reconhecido com a atribuição de vários prémios, tanto de desenho como de pintura, para além de a sua obra ter sido alvo de ampla e elogiosa atenção por parte da imprensa. 


Painel do Retábulo do altar-mor da 
Igreja Matriz da Pocariça, 1921

Na primeira Exposição de Homenagem Póstuma, realizada em 2003, patrocinada pela Câmara Municipal de Cantanhede, foram apresentados cento e quarenta trabalhos e editado o respectivo Catálogo. Em 2004 foi atribuido o seu nome a um novo arruamento da cidade de Cantanhede - “Rua Maria Amélia de Magalhães Carneiro”. A pintora foi incluída no Livro de Ouro do Município de Cantanhede"obra de 2015 centrada na evocação de oito personalidades do concelho, que são referências marcantes da história e da cultura de Portugal. 

Pela mão do Prof. António Cunha e Silva, a Câmara Municipal de Matosinhos e a Junta de Freguesia de Leça da Palmeira evocaram a ligação da pintora ao concelho - onde viveu nos últimos anos de vida e cujas paisagens fixou nas suas telas -, através de diversas iniciativas realizadas em 2009: conferência “Ilustres Leceiros – Amélia Carneiro – Histórias do Rio e do Mar de Leça” e inclusão na obra “Matosinhos, as Vozes e os Gestos”dedicada aos Artistas que marcaram a vida cultural e artística de Matosinhos durante o sec. XX.


"Ponte romana - Rio Leça" 1949 
Leça da Palmeira

No âmbito do Ciclo de Conferências Foz Literária, iniciativa da Junta de Freguesia da Foz do Douro, coordenada pelo Dr. José Valle de Figueiredo, foi dedicada uma sessão, em 2015, às obras da pintora e dos seus familiares que marcaram a cultura e a arte, sob o título "Quando as raízes são comuns - Pinheiro Caldas, Amorim de Carvalho, Amélia Carneiro e Maria Helena Vieira da Silva".






EXPOSIÇÕES
INDIVIDUAIS
1926 - Lisboa: Exposição de Pintura a Óleo, no Salão Bobone.
1930 - Porto: Exposição de Pintura a Óleo, no Salão Silva Porto.
1934 - Coimbra: Exposição de Pintura a Óleo, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Coimbra.
1937 - Lisboa: Exposição de Pintura a Óleo, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1941 - Porto: Exposição de Pintura a Óleo, no Salão Silva Porto.
1946 - Porto: Exposição de Pintura, no Salão Silva Porto.

COLECTIVAS
1908 - Porto: Exposição de Arte do pintor António José da Costa, seus sobrinhos e discipulos. 
1910 - Porto: Exposição de Desenho e Pintura das Alunas de Mestre Júlio Costa. 
1911 - Porto: Exposição de Pintura das Alunas de Mestre Júlio Costa. 
1913 - Porto: Exposição de Pintura de Mestre Júlio Costa e de suas Alunas Maria Amélia de Magalhães Carneiro, Maria Luiza Frias e Margarida Ramalho.
1913 - Porto: 6.ª Exposição Anual de Pintura da Sociedade de Belas-Artes do Porto.
1914 - Porto: 7.ª Exposição Anual de Pintura da Sociedade de Belas-Artes do Porto.
1915 - Lisboa: 12.ª Exposição Nacional de Belas Artes, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1916 - Lisboa: 13.ª Exposição Nacional de Belas Artes, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1917 - Lisboa: 14.ª Exposição Nacional de Belas Artes, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1918 - Lisboa: Exposição de Pintura a favor dos Soldados Pobres da I Guerra Mundial, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1920 - Lisboa: 17.ª Exposição Nacional de Belas Artes, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1922 - Coimbra: Exposição Colectiva Artística do 2.º Congresso Beirão.
1927 - Porto: Exposição a favor da Casa dos Jornalistas do Porto.
1927 - Lisboa: 24.ª Exposição de Arte, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1928 - Lisboa: 25.ª Exposição de Arte, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1930 - Lisboa: 1.ª Exposição Mulheres Portuguesas – Obras Femininas, antigas e modernas de carácter literário, artístico e científico, no jornal “O Século”.
1932 - Porto: Exposição de Arte a favor da Casa dos Jornalistas do Porto.
1935 - Porto: Grande Exposição de Artistas Portugueses – Trabalhos oferecidos para o Grande Sorteio Nacional de Arte a favor dos três monumentos a Silva Porto, Henrique Pousão e Artur Loureiro, a oferecer à cidade do Porto.
1936 - Coimbra: Exposição Colectiva dos Artistas da Beira.
1937 - Lisboa: 1.ª Exposição de Arte Retrospectiva (1880-1933), na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1939 - Lisboa: 36.ª Exposição de Belas Artes - Salão da Primavera, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1939 - Estoril: Exposição no Salão do Estoril.
1942 - Lisboa: I Exposição Feminina de Artes Plásticas, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1943 - Lisboa: 40.ª Exposição de Pintura e Escultura - Salão Primavera, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1955 - Porto: Exposição de Homenagem a Mestre Júlio Costa.
1956 - Lisboa: 52.º Exposição de Belas Artes - Salão da Primavera, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1959 - Lisboa: 55.ª Exposição de Pintura e Escultura – Salão Primavera, na Sociedade Nacional de Belas-Artes.
1960 - Viseu: Exposição de Artes Plásticas, por ocasião das Comemorações Henriquinas.

PÓSTUMA
2003 - Cantanhede: Maria Amélia de Magalhães Carneiro (1883-1970) - Exposição de Pintura e Desenho, na Casa Municipal de Cultura de Cantanhede.